piratesexual

A vida de um Piratesexual

Desde pequeno eu sabia que era diferente, sentia que eu era um pirata preso no corpo de um civil qualquer, me sentia diferente e deslocado. Minha infância foi difícil, as pessoas me criticavam porque eu era diferente. Na escola as crianças me zoavam, diziam que não era normal ser um pirata, que era coisa do demônio, me olhavam torto, como se eu tivesse algum tipo de doença. A situação devia ser pior ainda, pois cresci em colégio católico, cercado por freiras.

Lembro de quando meus pais foram chamados na escola porque eu tinha um comportamento diferente, disseram para meus pais que eu precisava de um psicólogo. Diziam que deus não aprovava minhas manias, mas qual deus? Meu deus aceita piratas, ama todos igualmente. Tudo que eu queria era ser eu mesmo.

As chacotas eram constantes, não importava onde eu ia, ouvia sempre as pessoas comentando. Isto quando não gritavam, pra ofender mesmo. “Olha o pirata ali”, “O cara precisa de tratamento”, ” Deveria existir uma cura pra isso” e “O problema não é ele ser pirata, mas agir como pirata”. Como se ser pirata fosse ruim, como se me chamar disto fosse ofensa.

Perdi a conta das vezes que apanhei. Era sozinho, não tinha ninguém pra me ajudar. Se ao menos eu tivesse uma tripulação na época…

As coisas iam piorando cada dia mais, a cobrança das pessoas me irritava. Quando dei a cara a tapa, dizendo para o mundo que eu era um pirata, parece que as coisas pioraram. Era mais que óbvio o que eu era, então, porque diabos assumir isto foi um choque pras pessoas? A certeza fez com que alguns dos poucos amigos que eu tinha se afastassem. As pessoas não entendiam quando eu dizia que não sentia atração por pessoas normais, que gostava apenas de piratas.

Qual o problema de não se sentir atraído por qualquer pessoa? Qual o problema de se sentir atraído apenas por piratas? É tão ruim assim ser pirata? Eu acho que não. Apesar da fama dos piratas, inventada por uma sociedade hipócrita, claro, nunca fiz mal a ninguém, nunca. As vezes que precisei arrancar sangue de alguém foram por pura defesa. Ainda assim, não me orgulho disto. Era minha vida alí, eu poderia morrer por ser quem sou, por ser um pirata.

Por sorte encontrei a pessoa ideal, uma pirata que está comigo, uma pirata que me ajuda e me apoia nos bons e maus momentos. As pessoas acham que somos malucos, acham que não temos estrutura familiar. Tudo piorou quando descobriram que eu iria ser pai. Me perguntaram diversas vezes como seria a cabeça de minha filha, hoje com quase quatro anos, ao ser criada por piratas. Qual o problema disso? O que somos não define caráter. Somos uma família, sempre seremos.

O fato de ser quem sou nunca irá interferir nas escolhas de minha filha, o que ela decidir, desejo o melhor pra ela. Nunca incentivaríamos ela a ser uma pirata, mesmo porque você não se torna pirata, você nasce um. Independente do caminho que ela seguir, seremos a família dela, estaremos sempre presentes.

Além de tudo, sabemos que existem milhares de pessoas como nós. Não somos melhores que ninguém, nem piores, apenas somos o que somos. Não mudaremos, é nosso jeito, é natural, quer você queira, ou não.

Deixo aqui meu recado para todos que adoram julgar outros por seu jeito, atitudes, por tudo. Sejam vocês mesmos. Não vale a pena ficar mentindo para si, não vale a pena tentar mudar seu eu afim de se enturmar. Somente as pessoas verdadeiras vão te aceitar e respeitar como é, as pessoas que merecem seu carinho vão estar ao seu lado.

Seja livre, seja quem é.

Para os burros de plantão, este texto é apenas uma metáfora

Comentários

Comentários

Tudo nele lembra a música "Born to be wild", do Steppenwolf. Antigo Capitão dos Piratas da Represa, é também um dos Fundadores da Aliança Pirata e diversos projetos relacionados aos Piratas Urbanos. Pode ser descrito em várias letras do Matanza.